quinta-feira, 19 de abril de 2012

Não sou ateu



Nunca gostei da palavra ateu. Talvez até por auto preservação, visto que declarar-se ateu no Brasil é quase equivalente a ser uma boticária na idade média ou, guardadas as proporções óbvias – é mais que provável que não se volte a usar câmaras de gás no mundo! –, um judeu na Alemanha nazista. Também etimologicamente eu nunca vi seu uso como uma forma correta de expressão, o que nos leva inevitavelmente à pergunta para afirmação positiva do título desse ensaio. Quando alguém pergunta, portanto, “você acredita em deus?” e esse alguém é cristão, é óbvio que esta pessoa não quer saber se eu acredito em shiva, ou em tupã, ou em baco. Na verdade, propor esse tipo de exercício mental pode até levar esta pessoa a agir de forma violenta e mesmo repensar o nível de proximidade entre os dois – acreditem, já passei por isso algumas dezenas de vezes!

No entanto, a pergunta “você acredita em deus?” nasce viciada. Não tem sentido para não cristãos, não deístas e ateus. É algo, diga-se, muito além da compreensão das pessoas do universo deísta cristão. Mas como este ensaio não é voltado a esse público, continuemos.
Já, então, desde minha adolescência, eu recusava o rótulo de ateu por não achar que tal vocábulo dizia meu pensamento em sua totalidade. Com o passar dos anos e com o crescimento do secularismo na Europa e nos Estados Unidos (o que favoreceu o surgimento de importantes grupos ateístas modernos), percebi quão acertado parece ter sido o desenvolver desta minha linha de pensamento e explico: A mim me parece que ateus têm se equivocado sobremaneira na tentativa barulhenta de ocupar espaços e se sentir seguros (essa busca por segurança, devo dizer, é legítima. E não é só ler livros de história para ter ciência dos estragos causados pela intervenção religiosa no mundo, mas o que ocorre também no mundo moderno), buscando agremiações, fazendo proselitismo e até usando da mesma conhecida violência religiosa na afirmação de suas convicções.
Vejo com muito entusiasmo o crescimento do secularismo, é verdade. Alguns países – como a Holanda – têm conseguido fazer um pouso suave na transição para uma sociedade com menos intervenções religiosas. É mesmo animador. Mas é preciso  certa cautela quando se trata de culturas mais deficitárias na educação formal e onde a laicidade constitucional  é apenas uma caricatura do minimamente aceitável, como no Brasil e mesmo nos Estados Unidos. Não há – e mais do que nunca é preciso o bom alento da razão – varinha que irá separar o imenso mar da ignorância religiosa e abrir passagem para uma sociedade onde se busque valores morais pelo sentimento único de fazê-lo, sem compensações fantasiosas e infantis. É preciso tempo.
O ateísmo não é, num modo simplista de dizer, confiável. A ressaca de um falso almejar é a razão. Já se fala, nesse sentido, de religião ateísta. Um crítica ignóbil proveniente de pessoas que fazem aquela mesma pergunta que gera um “eu sou ateu”, mas que não aparece gratuitamente. Há notórios elementos da religião em grupos ateus organizados. Rotulá-los como religião, no entanto, é um erro bobo. Esses elementos também podem ser percebidos em times de futebol em vários grupos não religiosos.
Por auto afirmação, grupos com sentimentos afins se agremiam e é aí que começa a confusão.  Não raro, para defender posições, por conseguinte, resta ao ateu a mesma arma irracional dos religiosos: a violência.
Não sou ateu. Não sou deísta. Tenho posições firmes contrárias a qualquer tipo de intervenção religiosa no Estado, nas instituições, na educação. Mas não me engano que aqueles sentimentos primitivos de medo e de carência são fantasmas inerentes ao ser humano.
Veja 1Alain Botton, por exemplo, um declarado ateu que deseja, entre outras coisas, institucionalizar um projeto “religioso-secular” onde as pessoas poriam de lado sua crença em sacis, mas salvariam o cachimbo para dar um pito, ocasionalmente. Num artigo publicado recentemente, Botton afirma, citando Nietche, que  “A sociedade secular, infelizmente, se empobreceu com a perda de toda uma série de práticas e de temáticas que são particularmente indigestas aos ateus, porque parecem reconectar-se muito estreitamente com "os maus odores da religião".
Discordo de Botton, a sociedade secular em nada terá empobrecido com o rompimento com religiões. Terá, ao contrário, enriquecido sobremaneira nas ciências, na saúde e no comportamento. A religião jamais avançou um milímetro em áreas onde instituições seculares como a música e o esporte avançaram, mesmo não sendo o objetivo final dessas instituições. 
A pressa de Botton em justificar seu apreço por elementos da religião não pode ter outra explicação que não o pequeno sentimento de que o ser humano necessita de uma aprovação maior para comportamentos naturais. Escorasse esse  filósofo nas bases do Estado, nenhum temor iria ter, pois apreciar música ou imagens não são crime em nenhum país laico e, em sendo crime – hipótese absurdo –, o indivíduo tem sempre o expediente de fazê-lo em troca de uma pena adequada. 
Por outro lado, o pensador lembra com propriedade do mesmo pequeno sentimento que nutrem os ateus que, ao procurarem refúgio numa não-religião, aproximam-se de uma, no extremismo de suas opiniões.
Do lado de fora de tudo isso, está a razão. E não há de se criar nunca uma religião à base da razão. A razão, na verdade, é instrumento de rompimento com tradições nocivas e inúteis. Abraão levando Isaque, seu filho, para matá-lo, religião. Anjo segurando mão de Abraão:  razão.
Esse rompimento não precisa ser brusco e a própria razão se encarrega, de uma forma bem natural, de nos afastarmos de folclores bobos e inúteis. O elemento de procissão hoje, nada mais é do que o trevo de quatro folhas amanhã. Paciência.
 


1Leia mais em
http://www.paulopes.com.br/2012/04/ateus-deveriam-aprender-com-sabedoria.html#ixzz1sRFv95it
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