Não há, talvez, em
toda a Bíblia, episódio que traga mais dificuldade para os cristãos
do que aquele que ficou conhecido como a Vingança dos Midianitas,
descrito no livro de Números em seu capítulo 31. As tentativas de
defender o indefensável são ridículas, quando não hilárias.
Conta essa história que o grande patriarca hebreu Moisés, sob ordem
direta do Senhor Deus de Israel, levanta contra os midianitas para
vingar as doze tribos do pecado trazido por aqueles incrédulos. O
pecado? Adorar um deus diferente. No combate, diz o livro de DEUS,
todos os homens de Midiã foram assassinados, inclusive seus reis, a
saber, Evi, Requem, Zur, Hur e Reba, além de Balaão, cuja jumenta
havia, outrora, lhe dado um belo sermão, mas isso é outra história.
As cidades foram dizimadas. O que parecia ter sido, no entanto, mais
uma campanha vitoriosa dos hebreus em nada agradou o grande líder
Moisés, que ficou decepcionado e irou-se profundamente quando, ao
receber seus oficiais, percebeu que estes haviam poupado mulheres e
crianças:
“Deixastes viver
todas as mulheres? Eis que estas, por conselho de Balaão, fizeram
prevaricar os filhos de Israel contra o SENHOR, no caso de Peor,
pelo que houve a praga entre a congregação do SENHOR.
Agora,
pois, matai, dentre as crianças, todas as do sexo masculino; e matai
toda mulher que coabitou com algum homem, deitando-se com ele.
Porém
todas as meninas, e as jovens que não coabitaram com algum homem,
deitando-se com ele, deixai-as viver para vós outros
”. Números 31.
O que as pessoas das
igrejas não percebem quando nos pedem –nós, livre pensadores –
pra ler a Bíblia para encontrar salvação (ninguém sabe exatamente
de quê!) é que é exatamente por ler o livro santo que pensamos
como pensamos. Em outras palavras, nós pensamos que qualquer
movimento que reconheça, endosse, aprove ou mesmo justifique
barbáries não pode ser legítimo. Como poderia ser justificado o
extermínio de seres indefesos? Como justificar a escravidão?
Desafia a própria
razão a tentativa de se argumentar a favor de episódios sórdidos
como esse.
É óbvio que com a
evolução do pensamento e o consequente rompimento – ainda que
tímido - com valores religiosos, poucas pessoas hoje em dia
concordariam com líderes genocidas. Pessoas normais repudiam esse
tipo de acontecimento. Mas daí a essas mesmas pessoas repensarem
movimentos que utilizam e veneram escritos e personagens primitivos,
psicopatas e genocidas ainda vai levar um bastante tempo.
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