segunda-feira, 16 de abril de 2012

Verdadeiros sepulcros caiados!



Tenho pensado muito sobre o que define uma pessoa, sobre o que nos leva a classificar alguém como um bom ser humano e o que, ao contrário, nos leva a julgar nosso próximo como mau e ao desfecho que chegaremos com tal exercício. É uma tarefa complicada, sobretudo porque ao arriscar dar tal definição, a atitude de fazê-lo levando em conta exclusivamente nosso eu é tentadora. Nesse caso, nosso julgamento nasceria viciado, pois entraríamos no debate do que é bom e do que é mau, definições bem relativas, sujeitas a elementos geográficos, culturais e pessoais.
Seja a definição de bom e mau um assunto espinhoso e de resultados questionáveis, as atitudes de uma pessoa, por outro lado, talvez nos leve, senão a um desenho perfeito do ser, mas a uma caricatura útil da pessoa, ou seja, de nós mesmos.
Antes de continuar, no entanto, devemos nos afastar da máxima cristã “não julgueis” por se tratar nosso exercício da mais pura tentativa – longe de ser dedo acusador – de entender a nós mesmos como pessoas e cidadãos. Nesse sentido, peguemos um exemplo de um próximo que, na pressa do dia a dia, estaciona seu carro bem na frente de uma rampa de acesso de um cadeirante. É possível que o leitor imediatamente se indigne e seja levado a taxar tal pessoa como má. Ou ainda, outro leitor poderá argumentar que pode não se tratar de alguém de má índole, mas de um pobre desavisado.
O respeito ao próximo é qualidade cada vez mais rara em nossa sociedade. Com pretextos diversos, seguimos atentando contra os direitos mais básicos das pessoas sem qualquer culpa. Desses desvios, alguns são responsáveis diretos por estarmos no outro extremo do que ordinariamente chamamos de civilidade. O que dizer, por exemplo, daquele cidadão que, dirigindo seu veículo último modelo, símbolo de status e poder, lepidamente abre a janela e arremessa à rua restos de sua protéica fast food, contribuindo, assim, para que nossa cidade se transforme numa Londres...do século XIV.
A desprezível – mas comum – atitude de jogar lixo nas ruas marca de uma maneira nada lisonjeira uma coletividade. Servirá como medidor de desenvolvimento social, na medida em que tal ato afronta não só a comunidade como um todo, mas também o já sofrido meio ambiente. Afere o grau de educação do indivíduo e, na sociedade ideal, partiria daí – e não de que carro o sujeito dirige – o patamá social que nos classificaria.
De todos os pequenos desvios comportamentais a que todos nós estamos sujeitos – e nem vou falar aqui do ato de furar fila, de preterir idosos e toda uma extensa lista de atitudes politicamente incorretas -, fazer sujeira deveria ser motivo de penalidade por parte do poder público. E em países desenvolvidos, pessoas flagradas promovendo sujeira (mesmo aquela arremessada do carro) estão sujeitas a pesadas multas. Não consigo pensar diferente. Certo dia fui almoçar num popular clube de Imperatriz e, por um momento, tive a sensação de estar num chiqueiro. E o pior, as pessoas pareciam totalmente à vontade, no meio de toda aquela porcaria. Triste. Não haverá mudança a curto prazo e, num médio prazo, a julgar pelo completo descompromisso de nossas autoridades com o assunto, continuaremos morando em Londres...do século XIV.
Em conclusão, atrevo-me a julgar aquele que propositadamente suja ruas e praças. Mesmo aquele singelo guardanapo, aquela guimba, aquele palito de picolé. Aquele sepulcro caiado que de seu carrão contribui para nosso lixão-cidade. Julgo-os medievais. Privados de qualquer noção de civilidade. Animais aos quais não devemos lançar pérolas. Incapazes de conviver em ambientes minimamente limpos e asseados. Porcos!
Duro demais? Acho que não!

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