Tenho
pensado muito sobre o que define uma pessoa, sobre o que nos leva a
classificar alguém como um bom ser humano e o que, ao contrário,
nos leva a julgar nosso próximo como mau e ao desfecho que
chegaremos com tal exercício. É uma tarefa complicada, sobretudo
porque ao arriscar dar tal definição, a atitude de fazê-lo levando
em conta exclusivamente nosso eu é tentadora. Nesse caso, nosso
julgamento nasceria viciado, pois entraríamos no debate do que é
bom e do que é mau, definições bem relativas, sujeitas a elementos
geográficos, culturais e pessoais.
Seja a
definição de bom e mau um assunto espinhoso e de resultados
questionáveis, as atitudes de uma pessoa, por outro lado, talvez nos
leve, senão a um desenho perfeito do ser, mas a uma caricatura útil
da pessoa, ou seja, de nós mesmos.
Antes de
continuar, no entanto, devemos nos afastar da máxima cristã “não
julgueis” por se tratar nosso exercício da mais pura tentativa –
longe de ser dedo acusador – de entender a nós mesmos como pessoas
e cidadãos. Nesse sentido, peguemos um exemplo de um próximo que,
na pressa do dia a dia, estaciona seu carro bem na frente de uma
rampa de acesso de um cadeirante. É possível que o leitor
imediatamente se indigne e seja levado a taxar tal pessoa como má.
Ou ainda, outro leitor poderá argumentar que pode não se tratar de
alguém de má índole, mas de um pobre desavisado.
O respeito
ao próximo é qualidade cada vez mais rara em nossa sociedade. Com
pretextos diversos, seguimos atentando contra os direitos mais
básicos das pessoas sem qualquer culpa. Desses desvios, alguns são
responsáveis diretos por estarmos no outro extremo do que
ordinariamente chamamos de civilidade. O que dizer, por exemplo,
daquele cidadão que, dirigindo seu veículo último modelo, símbolo
de status e poder, lepidamente abre a janela e arremessa à rua
restos de sua protéica fast food, contribuindo, assim, para que
nossa cidade se transforme numa Londres...do século XIV.
A
desprezível – mas comum – atitude de jogar lixo nas ruas marca
de uma maneira nada lisonjeira uma coletividade. Servirá como
medidor de desenvolvimento social, na medida em que tal ato afronta
não só a comunidade como um todo, mas também o já sofrido meio
ambiente. Afere o grau de educação do indivíduo e, na sociedade
ideal, partiria daí – e não de que carro o sujeito dirige – o
patamá social que nos classificaria.
De todos
os pequenos desvios comportamentais a que todos nós estamos sujeitos
– e nem vou falar aqui do ato de furar fila, de preterir idosos e
toda uma extensa lista de atitudes politicamente incorretas -, fazer
sujeira deveria ser motivo de penalidade por parte do poder público.
E em países desenvolvidos, pessoas flagradas promovendo sujeira
(mesmo aquela arremessada do carro) estão sujeitas a pesadas multas.
Não consigo pensar diferente. Certo dia fui almoçar num popular
clube de Imperatriz e, por um momento, tive a sensação de estar num
chiqueiro. E o pior, as pessoas pareciam totalmente à vontade, no
meio de toda aquela porcaria. Triste. Não haverá mudança a curto
prazo e, num médio prazo, a julgar pelo completo descompromisso de
nossas autoridades com o assunto, continuaremos morando em
Londres...do século XIV.
Em
conclusão, atrevo-me a julgar aquele que propositadamente suja ruas
e praças. Mesmo aquele singelo guardanapo, aquela guimba, aquele
palito de picolé. Aquele sepulcro caiado que de seu carrão
contribui para nosso lixão-cidade. Julgo-os medievais. Privados de
qualquer noção de civilidade. Animais aos quais não devemos lançar
pérolas. Incapazes de conviver em ambientes minimamente limpos e
asseados. Porcos!
Duro
demais? Acho que não!
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