É no zum-zum-zum das esquinas, nos encontros familiares e nas mesas de bar que a gente pode ter noção do que realmente o cidadão comum se preocupa. E não deixa de ser penoso constatar que assuntos ocupam boa parte do tempo das pessoas. Outro dia, no final de um bom domingo, me furtei de algum tempo para assistir a um semanário da Record, o Record News. Me surpreendeu a bela reportagem sobre a Amazônia. O tema sempre chama minha atenção. Minha sorte, no entanto, chegou ao fim quando, terminado aquele bloco, Paulo Henrique Amorim chama a reportagem a seguir: “Será que o cantor Belo está com depressão?”
Saí da sala pensativo. Meu deus, e agora? O que vou fazer se realmente o cantor Belo estiver com depressão? O que todos nós vamos fazer?? E aquilo me atingiu como um raio quando, finalmente, também como um raio, pensei: “Meu deus, quem diabos é esse cantor Belo???” E porque diabos um semanário com alcance de milhões se dá ao trabalho de produzir uma reportagem sobre o estresse do cantor?
A resposta, leitores, é simples. A audiência é certa. O cidadão comum brasileiro se ocupa cada vez mais de temas idiotas e descartáveis. A TV nos escraviza a nós todos com um lixo fétido e diário com nomes diversos: Novelas, reality shows, domingões, caldeirões e outras centenas de atrações da pior qualidade.
Estou sendo duro demais? Acho que não. Quando em vez, gosto de tomar café na tradicional padaria Pão do Gil, alí perto da Praça dos Pioneiros. Olho para nossos futuros líderes, os estudantes, dou uma outra olhada na rua, onde viaja a céu aberto o esgoto de Açailândia e não dá outra. Fico deprimido. Olho de novo as mesas e escuto por alto o que os jovens falam: Ouço um misto de facebook, big brother e outra dezenas de pequenos assuntos (tão pequenos quanto scraps) que, se juntarmos todos, só chegaremos a uma palavra: Lixo. Fico então acoado entre o esgoto a céu aberto e o esgoto dos temas das conversas de nossos jovens e, finalmente, agradeço que terminei meu café e posso agora sair.
Morador de Açailândia (sou nascido em Imperatriz MA), já há dois anos, gosto tanto daqui que não penso em deixar esta cidade por nada. Mas preciso dizer, acordo todo dia de manhã para ir ao trabalho e nenhum dia sequer me falta aquela impressão de que moro em Bangladesh. O Jardim Glória é o paradoxo do próprio nome. Não chega sequer a ser uma favela. Não é que as ruas lá sejam esburacadas. É que não há ruas de jeito nenhum. A escuridão é assustadora. Não somos servidos de água, e esgoto parece até uma palavra de outra língua.
E o que isso tem a ver com o que as pessoas assistem ou de que assuntos ocupam seu tempo? Ora, se as pessoas, principalmente a juventude, não têm a capacidade de se indignar, e preferem dedicar seu tempo à depressão do cantor Belo, significa que não há mudanças a caminho. Nossos líderes sabem muito bem que podem continuar com a podridão em que deixaram nossas ruas que ninguém irá se levantar para questionar.
A cultura sempre foi um dos mais firmes alicerces de qualquer sociedade. Weber afirmava que Roma, já corroída culturalmente por dentro, capitulava antes mesmo das invasões bárbaras. A velha loba, pobre em cultura, agonizava por dentro, ficando cada vez mais vulnerável, até seu completo desfacelamento.
Povo instruído, portanto, significa povo que cobra de seus gestores, povo que não aceita desmandos. Quem tem cultura (e me refiro aqui tanto a cultura no sentido de valores afora aqueles provenientes da formação escolar, como aqueles adquiridos na sala de aula, com a leitura de bons livros e bons jornais), tem mais poder de cobrança e é bem mais difícil de ser ludibriado com desculpas pobres e acintosas.
Povo de Açailândia, indignai-vos, pelo menos! Indignai-vos!!
Helio Wilson
Bancário
heliowillster@gmail.com
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