Recentemente
uma reportagem exibida pela TV aberta me chamou a atenção. Na matéria, um vídeo
caseiro mostrava duas adolescentes se afogando num pequeno rio e um vulto do que seria uma enorme cobra,
provavelmente uma sucuri, que aparecia de forma assustadora e rápida ao lado
das garotas, que freneticamente lutavam para viver. É sabido que são raros os
ataques de jiboias ou sucuris a humanos, mas o vídeo deixava poucas dúvidas e
os relatos de parentes e amigos, pessoas humildes, corroboravam para o que
parecia ser um feroz e letal bote animal.
Passadas
algumas semanas, após as quais uma equipe de peritos analisou a filmagem do
acontecido, nova reportagem foi ao ar para esclarecer o episódio.
Detalhadamente, os especialistas explicaram que, ao contrário do tudo podia
parecer, não havia sido cobra ou qualquer outro animal o responsável pela
tragédia das adolescentes. Ao melhorar as imagens em laboratório, descobriu-se
que o vulto que aparecia ao lado das crianças seria tão somente uma das mãos, a
esquerda, de uma das garotas que, no desespero do afogamento, se debatia na
água. Descartando a hipótese de ataque de cobra, explicaram as possibilidades
que levaram as duas adolescentes ao terrível afogamento.
Sem
margens para erro, encerraram um laudo técnico decisivo para o encerramento de
toda a boataria que surgira desde então, esvaziando beiras de brejos por todo o
país.
As
famílias das adolescentes tiveram – e é aqui que fica interessante – reações
diferentes ao serem informadas das conclusões da perícia. Uma das mães aceitou
de imediato os resultados e agradeceu por ter, finalmente, o esclarecimento do
fatídico. Estava aliviada e, embora ainda tivesse que conviver com sua perda,
satisfeita com as explicações.
A
crença em coisas sem fundamento, mas que trazem consolo em momentos difíceis, é
algo bem conhecido na humanidade. Na falta da razão, nós humanos, fracos que
somos, capitulamos ante as mais fantasiosas explicações disponíveis. Foi assim
com o homem primitivo, que tinha a seca como castigo divino, e é assim hoje.
A
outra mãe, ao ser oferecida as conclusões de especialistas, recusou-as de
pronto. Não podia aceitar que sua filha tenha se afogado puro e simplesmente . Era
certo que um ser demoníaco, a cobra, tinha se lançado para devorar sua pequena
e indefesa filha.
Embora
esse comportamento assustador seja comum e bem mais visível em pessoas de baixa
escolaridade, não é exclusiva destes. E
isso é o que torna mais claro o quanto o homem é fraco diante do caos que é o
mundo.
Em
certo sentido, o ser humano é a mãe sofredora que recusa evidências científicas
quanto a nossa existência. É bem mais confortante imaginar céu e inferno, Adão
e Eva, castigo e milagre do que aceitar a indiferença da natureza para com o
homem. Egoístas e medrosos, ainda hoje atribuímos a “pecados” cometidos doenças
causadas pelo que a ciência já nos diz a dezenas de anos os motivos.
E é dessa fraqueza que instituições pródigas
em mentiras e aproveitadores de todo o tipo sobrevivem. Argumenta-se em favor
dessas instituições a eterna carência humana. Mas o ser humano já há muito está
preparado para uma época de razão.
A
pergunta diante de adversidade, então, ao contrário de um vitimista “por que
eu?” transforma-se num realista “por que não eu?
De
forma bem simples, poderíamos bem ver que não há nem nunca houve e nunca haverá
ser humano que não tenha enfrentado adversidades, que seja imune a dificuldades
cotidianas pelo fato deste seguir ou deixar de seguir esta ou aquela filosofia
de vida. Sabe-se, por outro lado, que se há algo que nos nivela a todos é
justamente o quão somos passivos de toda e qualquer adversidade. Só temos que
aceitar isso.
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