segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sobre serpentes e Ciência


Recentemente uma reportagem exibida pela TV aberta me chamou a atenção. Na matéria, um vídeo caseiro mostrava duas adolescentes se afogando num pequeno rio  e um vulto do que seria uma enorme cobra, provavelmente uma sucuri, que aparecia de forma assustadora e rápida ao lado das garotas, que freneticamente lutavam para viver. É sabido que são raros os ataques de jiboias ou sucuris a humanos, mas o vídeo deixava poucas dúvidas e os relatos de parentes e amigos, pessoas humildes, corroboravam para o que parecia ser um feroz e letal bote animal.
Passadas algumas semanas, após as quais uma equipe de peritos analisou a filmagem do acontecido, nova reportagem foi ao ar para esclarecer o episódio. Detalhadamente, os especialistas explicaram que, ao contrário do tudo podia parecer, não havia sido cobra ou qualquer outro animal o responsável pela tragédia das adolescentes. Ao melhorar as imagens em laboratório, descobriu-se que o vulto que aparecia ao lado das crianças seria tão somente uma das mãos, a esquerda, de uma das garotas que, no desespero do afogamento, se debatia na água. Descartando a hipótese de ataque de cobra, explicaram as possibilidades que levaram as duas adolescentes ao terrível afogamento.
Sem margens para erro, encerraram um laudo técnico decisivo para o encerramento de toda a boataria que surgira desde então, esvaziando beiras de brejos por todo o país.
As famílias das adolescentes tiveram – e é aqui que fica interessante – reações diferentes ao serem informadas das conclusões da perícia. Uma das mães aceitou de imediato os resultados e agradeceu por ter, finalmente, o esclarecimento do fatídico. Estava aliviada e, embora ainda tivesse que conviver com sua perda, satisfeita com as explicações.
A crença em coisas sem fundamento, mas que trazem consolo em momentos difíceis, é algo bem conhecido na humanidade. Na falta da razão, nós humanos, fracos que somos, capitulamos ante as mais fantasiosas explicações disponíveis. Foi assim com o homem primitivo, que tinha a seca como castigo divino, e é assim hoje.
A outra mãe, ao ser oferecida as conclusões de especialistas, recusou-as de pronto. Não podia aceitar que sua filha tenha se afogado puro e simplesmente . Era certo que um ser demoníaco, a cobra, tinha se lançado para devorar sua pequena e indefesa filha.
Embora esse comportamento assustador seja comum e bem mais visível em pessoas de baixa escolaridade, não é exclusiva destes.  E isso é o que torna mais claro o quanto o homem é fraco diante do caos que é o mundo.
Em certo sentido, o ser humano é a mãe sofredora que recusa evidências científicas quanto a nossa existência. É bem mais confortante imaginar céu e inferno, Adão e Eva, castigo e milagre do que aceitar a indiferença da natureza para com o homem. Egoístas e medrosos, ainda hoje atribuímos a “pecados” cometidos doenças causadas pelo que a ciência já nos diz a dezenas de anos os motivos.
 E é dessa fraqueza que instituições pródigas em mentiras e aproveitadores de todo o tipo sobrevivem. Argumenta-se em favor dessas instituições a eterna carência humana. Mas o ser humano já há muito está preparado para uma época de razão.
A pergunta diante de adversidade, então, ao contrário de um vitimista “por que eu?” transforma-se num realista “por que não eu?
De forma bem simples, poderíamos bem ver que não há nem nunca houve e nunca haverá ser humano que não tenha enfrentado adversidades, que seja imune a dificuldades cotidianas pelo fato deste seguir ou deixar de seguir esta ou aquela filosofia de vida. Sabe-se, por outro lado, que se há algo que nos nivela a todos é justamente o quão somos passivos de toda e qualquer adversidade. Só temos que aceitar isso.

                                                                                         


Nenhum comentário:

Postar um comentário